Sapos e palavras pulam
Semana passada as aulas voltaram e logo no primeiro dia um aluno levantou a mão pra comentar alguma coisa e enquanto ele falava vi que a boca dele tava toda roxa. Comecei a pensar que ele tava tendo algum tipo de reação alérgica e ia começar a passar mal no meio da sala, até que o meu olhar seguiu a fileira e vi que três cadeiras atrás dele, com a cebeça abaixada, tinha uma menina com um batom rosa-escuro um pouco borrado.
Conseguir reparar nessas histórias dos alunos, mesmo as que eles não me contam, é bem legal. Ainda mais porque logo que comecei a dar aula ano passado, sentia um calafrio na nuca com a ideia de ser percebido por vários jovens de uma vez só, e passava uma boa parte dos tempos de aula como um boneco inflável de posto de gasolina que não sabe o que fazer com os braços. Antes disso, por precaução, sempre que via um grupo de adolescentes mais risonhos na rua atravessava pro outro lado. Afinal, já tendo sido um, não consigo nem imaginar o tipo de maldade que passa por aquelas cabeças.
Nunca tive dúvidas que esse medo tinha uma dimensão de “ai como eu queria que eles gostassem de miiiim”, mas para além disso, tinha uma certa pena, porque tinha certeza que algo nesse sentimento me impedia de estar verdadeiramente ali junto com eles. Meu sonho nesse momento era conquistar uma invisibilidade. Ser um mero mediador da turma com as poucas coisas que eles precisam saber pra escrever uma boa redação de vestibular. A mesma regra que se aplica pra juízes de futebol, deveria servir pra mim: bom, se você não nota que ele existe.
Me lembro do Fernando Pessoa que logo que voltou da África do Sul, onde ele morou alguns anos, mandou várias cartas pras pessoas mais próximas dele por lá se passando por um psiquiatra (Dr. Faustino Antunes), perguntando se elas se lembravam de um tal de Fernando e qual opinião tinham sobre ele.
O grande alçapão de tentar entender como o mundo é para os outros e como, nesse mundo deles, nós entramos e somos percebidos. Numa dessas, Fernado fez uma carreira.
Eu, só mais um ensimesmado, não conseguia entrar em relação com os alunos e, por isso mesmo, a única coisa que eles podiam me devolver era um espelho. Ali onde fechaste a porta é que não encontrarás nada. Uma ousadia dos gregos, aliás (que provavelmente tiveram pouquíssimo contato com espelhos) terem sacado que a nossa própria imagem é uma dessas armadilhas tão perigosas que inventaram um mito avisando que é preciso tomar cuidado com reflexo até mesmo de um lago.
Olhando agora, talvez a invisibilidade que sonhava não fosse o melhor desejo para se fazer - um gênio na lâmpada teria uma lição e tanto para me ensinar! Mas se encontrasse um no deserto, acho que meu desejo hoje já seria outro. Diria que ele tem algo a ver com uma frase da Anne Carson: “As palavras quicam. As palavras, se você deixar, vão fazer o que elas querem e o que elas tem que fazer”.
E eu desejaria:
— Gênio, quero assumir o compromisso de deixar as palavras quicarem e fazerem o que elas tem que fazer.
Acho que ficamos por aqui. 2 já foram. Vai vendo.


