Presentes que vão e voltam
O que seria do mundo se as palavras realmente pulassem?
Terminei a última newsletter contando da ideia da Anne Carson de deixar as palavras pularem. Mas primeiro que ficou faltando dizer que ela é de um livro chamado Autobiografia do Vermelho (que é uma delícia, aliás: mistura de mito grego com comédia romântica, sobre um monstro vermelho chamado Gerião). Mas, acho que ainda queria escrever um pouco mais sobre os pulos das palavras, e acho que a própria Anne Carson tem algo a dizer sobre isso.
Em uma entrevista, publicada na mesma época em que saiu a Autobiografia, ela diz que mais do que uma ferramenta de autodescoberta, escrever tinha a ver com quem dá e recebe um presente: seria um presente que o mundo oferece a quem escreve, e o escritor devolve esse favor ao transformar os elementos recebidos do todo em algo novo, e assim por diante. Um ciclo se fecha. “O mundo está constantemente te dando coisas e você poderia dar elas de volta.”
Essa noção de reciprocidade (dar-receber um presente ao mesmo tempo) tem a ver com a jeito que os gregos pensavam a linguagem e aparece por exemplo na palavra charis, que era usada por eles para se referir à graça de algo nesse sentido recíproco. “Os gregos usavam essa palavra para a graça de um poema, o charme que faz um poema e faz com que você queira se lembrar dele. Para eles fazer um poema é fazer algo tão charmoso que vai ser um presente que o mundo quer receber e também dar de volta justamente porque é tão bom. E essa reciprocidade segue e faz a cultura ter substância, um ir e vir.”
As palavras são do mundo e ao usarmos delas temos um compromisso em fazer algo disso tudo, nos diz a Anne Carson. Algo que me traz um poema muito bonito da Ana Martins Marques, Lembrete., que diz: “Lembrar que / enquanto andamos / por estas ruas banais/ sob um céu inestrelado / templos brancos como ossos / repousam entre oliveiras / quase igualmente antigas”. O lembrete ao leitor é justamente que mesmo nas nossas noites mais cinzentas, o mundo segue lá. Nele: “há leões e laranjas / falcões e hangares / anêmonas e zinco”. Em algum lugar do mundo: “uma mulher vê / a cidade acender-se / à medida que anoitece / e para acalmar-se / conta as janelas / iluminadas”. No segundo mesmo em que você lê esse texto: alguém conhece / pela primeira vez / a enguia, o sexo, a escrita”. E conclui: “pensar que devemos estar / à altura / disso.”
Agora parando para pensar, essa ideia do ir e vir da Anne Carson aparece em um outro livro dela: Eros, o doce-amargo (Leia e vai saber o que é encanto). Nele, ela faz uma leitura dos primeiros poemas escritos pelos gregos, ali pelo século VIII a.C.
Embora o mundo grego seja mais antigo que isso, antes desse período não há registro de um alfabeto sendo utilizado por lá; eles eram o que a gente chama de uma cultura oral. Chega a ser estranho pensar que algo tão fundamental para nós quanto a escrita teve que ser importada por uma cultura, e chegou de barco trazida provavelmente pelos fenícios. Mas longe de ser um detalhe, essa transformação marcou uma mudança radical na forma como as pessoas se relacionavam com o mundo e, sobretudo, nos diz a Anne Carson como elas lidavam com a paixão e o desejo. Esse livro no brejo, é a bíblia.
Talvez possa parecer um pouco abstrato, mas pensa aqui comigo, o primeiro ponto importante de entender é que uma cultura letrada se baseia em uma lógica de separações: um texto escrito separa as palavras uma das outras e separa as palavras na página do ambiente. Separa também, as palavras de quem as escreve, que agora pode ver suas ideias fora de si mesmo - algo impensável para um orador que profere um discurso. Mas, acima de qualquer uma dessas outras, a palavra escrita requer que leitores e autores busquem se separar do seu entorno.1 A leitura e a escrita são atividades que requerem foco e à medida que um indivíduo lê e escreve, precisa aprender a inibir a entrada de outras informações pelos sentidos, de modo que energia e pensamento estejam voltados para as palavras na página.2
Por outro lado, nas culturas orais a tendência é de uma mistura muito mais íntima com o ambiente. Como diz um trecho que poderia perfeitamente ter sido escrito pelo Harari (com todo o respeito): “em um meio oral a maioria dos dados importantes para sobrevivência […] são canalizados no indivíduo pelos canais abertos dos seus sentidos, em particular seu sentido de som, em uma contínua interação que o liga ao mundo exterior. A completa abertura em relação ao ambiente é uma condição de consciência e alerta ideal para tal pessoa, e um intercâmbio contínuo e fluente de impressões e reações sensuais entre o ambiente e essa pessoa é a condição apropriada para sua vida física e mental. Fechar os próprios sentidos para o mundo exterior seria contraproducente para a vida e para o pensamento.”3
A gente, faz muito muito tempo, já naturalizou demais todo o sistema de escrita, mas mesmo assim quase todo mundo tem uma memória da infância de quando as letras ainda eram desenhos que tínhamos que decifrar. Eu nunca vou esquecer o quão traiçoeiro era fazer um H cursivo.
Pra Anne Carson, esses primeiros poemas escritos na Grécia, tariam no limite entre duas formas radicalmente diferentes de entender o mundo, e a partir disso eu sinto que ela conseguiu imaginar um outro modo de se relacionar com as palavras e o mundo. Um mundo, talvez, que busca se aproximar de uma certa oralidade em que as fronteiras entre o eu e o mundo, se dão por outros termos e onde é possível que as palavras pulem.
Acho legal também dizer, que pra ela essa visão seria oposta a uma outra. Na entrevista, a Anne Carson conta que não acredita na escrita como algo que diz respeito apenas a ela mesma. “Um livro de memórias que se volta pra mim não contribui de jeito nenhum com essa troca. Essas coisas que as pessoas estão escrevendo hoje em dia me parecem meio auto-circulares. Uma forma de terapia. Isso é, um jeito de escrever sem ter que ter nenhum fato, por isso é só preguiçoso. Mas desrespeitoso, sobretudo, o que é mais importante do que preguiçoso, porque para se concentrar em si mesmo você realmente tem que sair por aí ignorando muita coisa no mundo. O mundo está constantemente te dando coisas e você poderia dar elas de volta.”
Chega! Essa saiu densa mas espero que não tenha ficado com cara de trabalho de faculdade. Um beijo, um abraço e até a próxima!
Eros doce-amargo, p.80
p.73
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